22 de mai de 2008

Gianni Vattimo

O movimento de 1968 representa o início do pós-moderno: com o declínio da metafísica, ou seja, com o declínio de uma idéia de racionalidade central que o filósofo poderia possuir, e sobretudo, porque outras culturas passaram a se fazer ouvir (penso na revolta dos povos das ex-colônias, a qual se reflete, do ponto de vista teórico, no estruturalismo: todas as culturas possuem direitos iguais), os intelectuais perdem seu papel de guia do príncipe, de assessores do soberano.
A opinião pública torna-se sempre mais plural, uma espécie de caos (positivo), onde se chocam opiniões diferentes e diferentes visões de mundo. A própria revolta juvenil – não apenas a estudantil – daquela época é um reflexo desse declínio do “pensamento único”, das auctoritates, sobretudo no plano moral: crítica da família, desconfiança em relação às instituições, um desejo geral de renovação.
A primeira reação dos intelectuais à crise de seu próprio papel, ligada à crise da metafísica, ou seja, à fé numa única racionalidade, que podia ser identificada com a cultura dominante ocidental, é uma espécie de refluxo à esfera privada: cada um trabalha para si, numa conexão direta com as demandas do “mercado”, dos editores, da mídia, do “público” como um todo. Felizmente, não existe mais a idéia de que o intelectual seja um “guia”; infelizmente, porém, também não existe mais a crença de que ele deva interpretar num sentido progressivo, em direção a um projeto qualquer, o estado de espírito das pessoas.
Nessa posição dos intelectuais espelha-se todo os aspectos positivos e negativos do pós-moderno: o fim das grandes meta-narrativas – e portanto, a libertação de esquemas metafísicos de origem marxista, hegeliana, positivista; por outro lado, a perda de qualquer engajamento em favor daquilo que a ideologia anterior chamava de progresso geral. Acontece nesse caso algo parecido como que ocorreu com a religião: após a perda das grandes certezas metafísicas, que eram também a base do ateísmo dos filósofos, torna-se novamente possível pensar seriamente na religião como engajamento pessoal. Assim, o relativo “deserto” da pós-modernidade abre também o caminho - ou poderá abrir o caminho – para uma nova concepção do humano ou do humanismo, em que o destino comum faz-se perceber como um fato de alteridade elementar: pensemos na popularidade de um filósofo como Lévinas, com sua teoria da face do outro entendido como fonte primeira de responsabilidade, para além de qualquer conceito metafísico geral.
Hoje o papel público dos intelectuais, que vinha sendo exercido até agora num sentido negativo – como desconstrução pós-moderna das grandes narrativas metafísicas e político-morais – pode-se tornar novamente de certa forma positiva; mas não falando em nome do universal – em que não mais acreditamos e que percebemos sempre como uma pretensão disfarçada de “Razão” – mas tomando consciência de nosso próprio posicionamento: histórico, cultural (também como pertencimento a essa ou aquela cultura) e mesmo nosso posicionamento de “classe”. Não se trata somente de dar voz a interesses particulares, mas de interpretar, ou seja, colocar de forma legível para todos, perspectivas, expectativas, esperanças, exatamente daquela parte da humanidade que até agora não teve a capacidade de se fazer ouvir. Por isto, a tarefa do intelectual permanece sendo um papel “crítico”, ainda que não meramente desconstrutivo, destrutivo. Pois o ser, se é que de fato é algo, é o futuro (recordando a lição de Heidegger), portanto, a crítica constitui em dar voz àqueles projetos que ainda não conseguiram ser compreendidos. Como dizia Walter Benjamin, é preciso que se faça ouvir a voz dos vencidos da história. A repugnância que todos temos em relação ao conformismo deve encontrar aqui sua verdadeira expressão: escutar as vozes que até agora foram caladas e reprimidas. Não unicamente por dizerem coisas importantes, mas porque são “outras” e o ser (mas, se se quiser, Deus ele próprio) é sempre outro ou o outro.
Nietzsche e Heidegger, sobretudo o último estão muito presentes nessa reflexão que provém livremente do espírito de 68. Nietzsche, pois nos ensina a pensar que o nihilismo, ou seja, o declínio das grandes meta-narrativas metafísicas, dos assim-chamados valores, não é uma lástima, mas a possibilidade de inventar novos valores, menos repressivos, para nossa convivência. Heidegger, pois no mesmo espírito, convida-nos a não pensar em nosso destino em termos de aceitação da objetividade dada (que é sempre um fato de autoridade e de domínio), mas em termos de projeto.
A polêmica contra o relativismo parece-me ser, sobretudo, um tema das “autoridades” religiosas e políticas de todos os tipos, contra a liberdade. De resto, não há pessoas “relativistas”, pois ninguém professa a própria verdade pensando que as outras verdades sejam tão verdadeiras quanto a sua. Há instituições “relativistas”, que são simplesmente as democracias liberais, em que vigora a liberdade de pensamento. Será que talvez gostaríamos de eliminá-las para garantir a “segurança” contra os “terroristas”?
Nada de retorno à tradição, portanto, isso significaria sempre uma submissão à autoridade. Ao contrário, precisamos de uma discussão púiblica mais intensa, de uma participação política mais ampla e contínua dos cidadãos, para vencer aquela que sempre mais se revela como uma asfixia da democracia nos países obcecados pela “luta contra o terrorismo”.
Uma perspectiva pós-moderna, que é também uma perspectiva anti-metafísica, prefere liberalismo e democracia não porque estejam fundados sobre valores humanos “eternos”, mas porque representam as únicas possibilidades de dar um sentido não unicamente retrospectivo à história. Como afirma Heidegger, nós somos “projetos” e por isso precisamos de liberdade e de espaços abertos.

G. Vattimo
[Trad. Andrea Lombardi]

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